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O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio da 17ª Promotoria de Justiça de Montes Claros, denunciou sete pessoas ligadas à Clínica Assistencial Fortalecer e ao Instituto Feminino Fortalecer, rede de clínicas clandestinas de internação que funcionava na cidade. Elas são acusadas de organização criminosa, cárcere privado, tortura, estupro, importunação sexual e coação no curso do processo. 

A denúncia aponta quinze vítimas mantidas em cárcere privado entre 2023 e 2026, nove delas adolescentes à época dos fatos e quatro mulheres com transtorno mental. Entre os denunciados estão o proprietário das unidades, apontado como líder do grupo, três coordenadoras, uma técnica em enfermagem, um psicólogo e um responsável pela vigilância dos internos. 

De acordo com o MPMG, parte das vítimas, entre elas adolescentes, foi levada às unidades em cumprimento de decisões judiciais de internação compulsória, com despesas pagas, em muitos casos, pelos municípios. Essas internações eram indevidas, porque a lei proíbe qualquer forma de internação em comunidades terapêuticas, que só podem acolher quem as procura voluntariamente. 

Essas vítimas não tinham acompanhamento de equipe técnica nem tratamento. O grupo ainda exibia as próprias decisões judiciais como se autorizassem a recaptura de quem fugia. 

Nas unidades, as internas ficavam trancadas, sem documentos e sem telefone, e só falavam com a família uma vez por semana, sob vigilância. A disciplina era imposta com psicotrópicos ministrados sem prescrição, amarração em camas com faixas de contenção, agressões e trabalho forçado. 

Segundo a denúncia, o proprietário também se valia da privação de liberdade e da autoridade sobre as internas para submetê-las a abusos sexuais. Adolescentes eram levadas a motéis, com a intermediação de integrantes do grupo, sob a promessa de liberação antecipada. 

O grupo tinha finalidade econômica. Entre 2022 e abril de 2026, a clínica recebeu mais de R$ 700 mil de pelo menos 23 municípios mineiros, além das mensalidades pagas pelas famílias. Mesmo depois da interdição judicial, em fevereiro de 2025, as unidades continuaram a funcionar na clandestinidade. 

Medo e ocultação

Os fatos começaram a ser apurados em 2024. As vítimas eram ameaçadas, inclusive de morte, e a própria equipe de investigação registrou que pessoas ouvidas mudaram seus relatos por medo de represálias.  

Em fevereiro de 2024, minutos antes de adolescentes serem ouvidas pelo MPMG, o proprietário orientou-as a negar os abusos. Em novembro de 2025, abandonou uma adolescente de 15 anos à beira de uma rodovia, depois de ameaçar encontrá-la “até no inferno” se ela contasse o que acontecia na clínica. 

De acordo com as investigações, o grupo também se antecipava às fiscalizações. Em novembro de 2025, horas antes de uma operação do MPMG e da Polícia Militar, os internos foram levados de madrugada para um espaço de eventos. Em agosto de 2026, durante uma operação policial, cerca de vinte mulheres foram escondidas em uma área de mata. 

Atuação do MPMG

O caso reúne o trabalho de seis promotorias de Justiça, do Grupo de Apoio Especial de Combate ao Crime Organizado, da Polícia Civil de Minas Gerais, da Vigilância Sanitária e de Conselhos Tutelares, ao longo de quase cinco anos. O MPMG firmou Termo de Ajustamento de Conduta com o proprietário em 2023, requisitou inquérito em 2024 e obteve a interdição das clínicas em 2025. 

Diante do descumprimento da interdição, instaurou procedimento investigatório criminal, atuou em conjunto com a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e obteve na Justiça buscas, apreensões e as prisões cumpridas em setembro de 2026. 

Com os fatos divididos em três procedimentos, o MPMG reuniu o material e ofereceu a denúncia com base nas provas já colhidas, enquanto prossegue a análise dos celulares apreendidos. Também pediu a prisão preventiva de quatro denunciados e a fixação de indenização mínima às vítimas. 

O MPMG requisitou, ainda, novos inquéritos sobre fatos que dependem de apuração própria, como agressões a outras internas e a idosas, outras vítimas adolescentes, novos relatos de abusos sexuais, mortes ocorridas nas unidades, ameaças com arma de fogo e a participação de outras pessoas no grupo. 

“Pessoas que procuravam tratamento encontraram trancas, remédios para dopar, agressões e abusos. O medo foi o maior obstáculo da investigação, e ainda há fatos a esclarecer e vítimas a ouvir”, afirma o promotor de Justiça Daniel Lessa Costa. 

Pessoas que passaram pelas clínicas ou seus familiares, podem levar informações à Polícia Civil, ao Ministério Público ou ao Disque 100. 

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Ministério Público de Minas Gerais

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