Notícias - Direitos HumanosJulho das Pretas reforça papel do diálogo coletivo no enfrentamento ao racismo e ao machismo
Em roda de conversa promovida pelo MPMG, lideranças negras mineiras compartilharam experiências e apontaram caminhos para promover a igualdade racial e de gênero. "Se não dialogarmos, não formaremos novas concepções", afirmou Makota Celinha durante o encontro, que integrou a programação do Sobre Tons





O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) promoveu, na tarde de terça-feira, 21 de julho, no Pilotis da Procuradoria-Geral de Justiça, em Belo Horizonte, a roda de conversa "Julho das Pretas no MPMG: Dialogar é Verbo Coletivo". O encontro reuniu lideranças negras mineiras com atuação destacada em diferentes áreas para refletir sobre temas como racismo estrutural e institucional, machismo, homofobia, transfobia, feminicídio e o papel da educação e das instituições públicas na transformação dessa realidade.
Realizada pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf), em parceria com a Coordenadoria de Combate ao Racismo e Todas as Outras Formas de Discriminação (Ccrad), a ação integra a programação do Sobre Tons – Programa Institucional Antirracista do MPMG. Ela marca também o 25 de julho, data em que são celebrados o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra e o Dia Municipal de Dona Valdete da Silva Cordeiro, em Belo Horizonte.
Conhecida por liderar o grupo cultural Meninas de Sinhá, Dona Valdete tornou-se referência na luta pelos direitos das mulheres negras e simboliza a resistência celebrada durante o evento.
Compromisso institucional
Na abertura da atividade, a coordenadora da Ccrad, promotora de Justiça Nádia Estela Ferreira Mateus, ressaltou que o 25 de julho representa mais do que uma data comemorativa. "Ela nos convida a revisitar a história a partir da memória coletiva da população negra, reconhecer as contribuições fundamentais do povo negro para o desenvolvimento do país, principalmente das mulheres negras, e reafirmar a urgência de políticas de reparação que enfrentem as desigualdades raciais e de gênero ainda presentes em nossa sociedade".
Na sequência, a diretora do Ceaf, procuradora de Justiça Cássia Virgínia Gontijo, destacou que os avanços conquistados nas últimas décadas precisam ser acompanhados por ações permanentes. "Apesar de estarmos no século XXI, ainda estamos vivenciando a necessidade de luta por direitos tão caros. Muito já avançamos, mas a causa exige muito mais. É necessário monitorar e fortalecer o combate à desigualdade racial e de gênero continuamente, inclusive com ações que levem ao conhecimento público as lutas e conquistas das mulheres negras".
Representando a Administração Superior, a procuradora-geral de Justiça adjunta jurídica, Reyvani Jabour Ribeiro, afirmou que combater as desigualdades faz parte da missão constitucional do Ministério Público. Segundo ela, o Julho das Pretas é um convite à reflexão sobre as estruturas que sustentam o racismo e o machismo e reforça o dever institucional de promover a equidade, valorizar a diversidade e garantir uma atuação comprometida com os direitos humanos.
O AQUI ?Roda de conversa
Mediada pela professora, jornalista, curadora de artes, ativista cultural e diretora de redação da revista Canjerê Rosália Diogo, a roda de conversa reuniu, entre as participantes: a vereadora de Belo Horizonte Juhlia Santos; a coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, Makota Celinha; a assistente social e ativista do movimento de mulheres negras Ayala Santeiro; a mestra em Administração e empresária Karina Célia; a professora do Instituto Federal de Minas Gerais (Campus Betim), Mônica do Nascimento Barros; e a doutora em Comunicação Social Tatiana Costa. A apresentação do evento foi conduzida pela comunicadora e empreendedora Sandra Nandaka, que também participou dos debates.
Neta de um homem escravizado, Makota Celinha ressaltou que o diálogo é condição indispensável para transformar a realidade vivida pelas mulheres negras. "Se ainda precisamos falar de bem-viver, é porque ainda não nos permitem viver bem. Se não dialogarmos, nós não formaremos novas concepções. Ainda vivemos em uma sociedade machista, racista, misógina e homofóbica. Estatisticamente, quem mais sofre com essa realidade são as mulheres negras".
Ayala Santeiro chamou atenção para a importância das redes construídas pelas mulheres negras e destacou o significado de ocupar espaços institucionais como o Ministério Público. "Nós, mulheres negras, temos esse potencial de dialogar pensando no coletivo. O Julho das Pretas nos mobiliza e mostra a importância da voz de cada mulher. Dialogar dentro do Ministério Público é uma porta que se abre para um caminho que, por muito tempo, não conseguíamos acessar", disse.
A vereadora de Belo Horizonte Juhlia Santos defendeu que o debate sobre os direitos das mulheres negras também considere as diferentes experiências que atravessam esse grupo, como as dissidências de gênero. Ela compartilhou dificuldades enfrentadas por ser uma mulher travesti, preta e quilombola. "Quando entrei no movimento negro, percebi que ele não dava conta de interseccionalizar as questões de gênero, e o movimento LGBT também não dava conta de me pensar preta. Era necessário um olhar interseccional sobre isso", recordou. Segundo ela, essa reflexão também marcou sua trajetória acadêmica e fortaleceu sua atuação política.
Ao analisar os desafios enfrentados pelas mulheres negras, a professora Mônica do Nascimento Barros destacou que ocupar espaços como o serviço público representa uma conquista coletiva e contribui para transformar realidades. Segundo ela, o acesso a esses espaços fortalece famílias e amplia oportunidades.
A professora também defendeu o fortalecimento das redes de acolhimento para que mulheres consigam romper os ciclos de violência. "Eu sou um coletivo. Só estou aqui porque várias mulheres sobreviveram à violência e educaram filhos que compreendem que todas as pessoas devem caminhar lado a lado. Precisamos criar redes potentes, presentes e efetivas de acolhimento para que as mulheres consigam romper os ciclos de violência", defendeu.
Para a professora Tatiana Costa, o enfrentamento ao racismo também passa pela transformação das narrativas e da forma como a sociedade imagina o futuro. Inspirada na historiadora e intelectual Beatriz Nascimento, ela defendeu a construção cotidiana de novos imaginários sociais, capazes de romper com desigualdades históricas e afirmar outras possibilidades de existência para a população negra.
Ao final, a empresária Karina Célia destacou que a presença das mulheres negras em espaços historicamente inacessíveis representa um avanço importante, mas lembrou que a luta por igualdade continua.
? INSIRA A FOTO AQUI ?O encerramento da atividade contou com uma apresentação musical da multiartista, educadora e percussionista Alcione Oliveira, primeira mestra de Capoeira Angola de Minas Gerais. Acompanhada da musicista Sara Abreu, ela apresentou um repertório que celebrou a ancestralidade, a cultura afro-brasileira e a força das mulheres negras, reforçando a mensagem de que o diálogo, a memória e a construção coletiva são caminhos fundamentais para uma sociedade mais justa e igualitária.
NSIRA AS FOTOS A
QUI ?

Clique aqui para ver mais fotos do evento.
