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Iniciativa premiada pelo Compor foi idealizada por Promotoria de Justiça a partir de relatos de pessoas que dormiam em bancos e carros enquanto acompanhavam parentes internados. Em poucos meses, espaço já acolheu mais de mil pessoas vindas de diferentes regiões de Minas Gerais

Quem chega a uma cidade desconhecida acompanhando um familiar internado em estado grave costuma carregar mais do que malas improvisadas. Leva medo, cansaço, insegurança e, muitas vezes, nenhuma condição financeira para pagar hospedagem. Em Oliveira, no Centro-Oeste de Minas, histórias assim eram frequentes entre parentes de pacientes atendidos pelo Hospital São Judas Tadeu. 

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“Recebíamos relatos de familiares dormindo há uma semana nos bancos do pronto-socorro, revezando no carro para dormir”, conta a promotora de Justiça Josiane Moreira Soares Malaquias, da 2ª Promotoria de Justiça de Oliveira. “Nos sensibilizamos com a situação e vimos precisávamos fazer algo”. 

A partir dessas escutas feitas durante atendimentos ao público, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) articulou um acordo com o município de Oliveira e o Hospital São Judas Tadeu para criar uma casa de acolhimento destinada a familiares de pacientes vindos de outras cidades. A iniciativa foi uma das vencedoras do Prêmio Boas Práticas 2025 do Centro de Autocomposição de Conflitos e Segurança Jurídica (Compor) do MPMG, na categoria Criatividade. 

A Casa de Acolhimento Hospitalar Anafatima Assis Rivetti de Oliveira foi inaugurada em novembro de 2024, próximo ao hospital, na região central da cidade. O espaço conta com 11 leitos, banheiros, lavanderia, cozinha equipada, além de quatro funcionários responsáveis pelo atendimento aos hóspedes e manutenção do local. 

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Na casa, os acompanhantes podem tomar banho, dormir e fazer as refeições enquanto aguardam a recuperação do familiar internado. A alimentação e o serviço de lavanderia das roupas de cama são fornecidos pelo hospital. Já o município é responsável pelo aluguel do imóvel e pelos funcionários da casa. O mobiliário e o enxoval foram doados por entidades civis. 

Articulação 

O acordo nasceu após a instauração, em maio de 2024, de um procedimento administrativo pela 2ª Promotoria de Justiça de Oliveira para acompanhar políticas públicas voltadas ao acolhimento de familiares de pacientes em Tratamento Fora do Domicílio (TFD). 

Segundo a promotora de Justiça, a demanda se tornou ainda mais urgente diante do perfil regional do hospital, referência em atendimentos de alta complexidade e neurocirurgias pelo SUS. “A assistência à saúde é muito complexa e precisa ser olhada de forma integral. Às vezes, o cuidador também adoece. Se não cuidar dele, ele vira o próximo paciente”, afirma Josiane Malaquias. 

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Ela destaca, ainda, que o diálogo entre as instituições foi essencial para a concretização da iniciativa. “O Ministério Público, conversando com as partes, consegue neutralizar desavenças e reunir forças para um objetivo comum. Tivemos boa vontade do hospital e do Executivo. Foi uma mediação muito tranquila.” 

Apoio em momentos de fragilidade 

A psicóloga do Hospital São Judas Tadeu Celeste de Barros Muniz Lima explica que a equipe psicossocial da instituição encaminha para a Casa familiares de pacientes em estado crítico internados no CTI ou na sala vermelha - setor onde a equipe médica define se o paciente será transferido para o CTI ou para a enfermaria. 

“Se o paciente está lúcido, fica muito preocupado com o familiar sozinho em outra cidade. Se está entubado, o acompanhante fica ainda mais perdido, por não conhecer ninguém”, relata. 

Segundo ela, há casos de familiares que permanecem apenas um dia e outros que ficam meses na cidade acompanhando o tratamento. “O paciente, sabendo que a família está segura, também se sente mais seguro dentro do hospital”, afirma a psicóloga.  

A psicóloga também ressalta que o acolhimento vai além da hospedagem. “Às vezes, o paciente vem a óbito e a equipe ajuda a família naquele momento de luto. Muitas vezes o acompanhante é idoso, hipertenso, e também precisa de cuidados". 

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Histórias marcantes 

Para quem trabalha diariamente na casa, as histórias vividas ali revelam o impacto da iniciativa. 

A funcionária Claudiana Rosária Ferreira Santos lembra do caso de um idoso de Itaúna que permaneceu cerca de dois meses no local acompanhando o filho, vítima de um acidente de moto. “Ele chegou desorientado, com o filho entre a vida e a morte. Depois que o rapaz recebeu alta, os dois voltaram aqui para agradecer. O filho dele nasceu de novo”, conta. 

Outra história marcante, segundo ela, foi a de uma mulher de Montes Claros que acompanhava a filha internada após complicações no parto, enquanto cuidava do outro filho, autista. “As funcionárias ajudavam a cuidar do menino quando ela precisava ir ao hospital. Infelizmente, a filha faleceu depois”, relata Claudiana. 

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De acordo com ela, desde a inauguração, mais de mil pessoas já passaram pela casa. Os hóspedes vêm de cidades de diferentes regiões mineiras, como Aimorés, Governador Valadares, Formiga e Bom Despacho. Há também pessoas vindas de municípios da divisa de Minas com Bahia e Espírito Santo. “Tem gente que chega só com a roupa do corpo, no momento de maior fragilidade. A casa faz muita diferença para elas”, afirma. 

A diretora de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Oliveira, Claudiane Campos Miguel, reforça que antes da criação da casa muitos acompanhantes dormiam na portaria do hospital. “É um momento de muita vulnerabilidade. Muitas vezes a pessoa não sabe nem se vai voltar para casa com o familiar vivo.” 

Ela também destaca o papel humano desempenhado pelos profissionais do espaço. “Os funcionários conversam, escutam e acolhem essas pessoas. Isso também transforma". 

Com a futura implantação do serviço de oncologia no município, a expectativa é de que a demanda pela casa continue crescendo. Já existem tratativas para a locação de um imóvel maior, capaz de atender mais famílias. 

Para a promotora Josiane Malaquias, a experiência mostra como a escuta da população e a atuação conjunta entre instituições podem produzir soluções concretas para problemas cotidianos. “Só conseguimos enxergar essa realidade porque o Ministério Público mantém as portas abertas para ouvir as pessoas. Quando se promove diálogo e união de esforços, é possível transformar a vida da comunidade". 

Compondo em Maio

A reportagem faz parte da série especial “Acordos que transformam”, que apresenta iniciativas reconhecidas na Premiação de Boas Práticas Autocompositivas do Compondo em Maio.

O Compondo em Maio é um programa do MPMG, desenvolvido pelo Compor, por meio do Núcleo Permanente de Incentivo à Autocomposição (Nupia). A iniciativa incentiva soluções construídas por meio do diálogo, como mediação, negociação, conciliação e práticas restaurativas.

Em 2025, o programa recebeu 271 inscrições e contribuiu para a realização de 1.961 acordos, com impactos econômicos superiores a R$ 1 bilhão. A premiação reuniu 108 iniciativas inscritas por membros do Ministério Público de diferentes regiões de Minas Gerais.

Com o tema “De MP para MP”, a edição de 2026 conta com palestras e debates sobre soluções consensuais de conflitos, justiça restaurativa e comunicação não violenta.

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Ministério Público de Minas Gerais

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