Notícias - Patrimônio Histórico e CulturalMPMG participa da entrega das obras de restauração da Casa do Intendente em Diamantina
Projeto de requalificação de imóvel do século XVIII foi selecionado pela plataforma Semente e recebeu investimento de R$ 1 milhão para recuperação estrutural e artística

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) participou, nesta sexta-feira, dia 20 de fevereiro, da cerimônia de entrega das obras de restauração da Casa do Intendente dos Diamantes Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. O imóvel do século XVIII, pertencente à Mitra Arquidiocesana de Diamantina, passou por intervenções estruturais e artísticas executadas pela instituição religiosa com recursos destinados pelo MPMG. A edificação deverá abrigar um museu, com inauguração prevista para o primeiro semestre deste ano.
A iniciativa foi viabilizada pela Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC). O projeto foi selecionado por meio da plataforma Semente, que analisa projetos de relevância social e cultural para receberem recursos de medidas compensatórias (como multas e indenizações), integrando a segunda fase do programa Minas para Sempre, do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (Caoma).
Antes da atual intervenção, o sobrado apresentava sinais de degradação em algumas de suas estruturas, permanecendo fechado ao público há mais de duas décadas. Embora tenha passado por uma reforma na cobertura há cerca de 12 anos, o casarão carecia de uma restauração completa que devolvesse a segurança e a integridade aos seus elementos ornamentais.

O investimento na obra foi de R$ 1 milhão, com intervenções executadas ao longo de 24 meses. Os serviços contemplaram a recuperação de elementos arquitetônicos, o restauro de pinturas e forros, além da readequação estrutural para garantir acessibilidade universal. Com a revitalização, o imóvel passou por uma requalificação de seus espaços físicos, tornando-o apto para abrigar atividades culturais e visitação pública.
Durante a solenidade, o arcebispo de Diamantina, Dom Darci José Nicioli, relembrou a trajetória do prédio e de seu mais ilustre morador, o Intendente Câmara, destacando sua formação em Coimbra e a amizade com José Bonifácio. "Hoje, ao devolvermos suas páginas ao frescor do presente, permitimos que as novas gerações possam contemplar o passado, entendendo suas raízes e construindo seu futuro", afirmou o arcebispo.
A museóloga Lílian Aparecida Oliveira destacou que o trabalho técnico de restauração é o primeiro passo para a ocupação social do espaço. Segundo ela, o objetivo é que a edificação não seja apenas um depósito do passado, mas que estabeleça um diálogo constante com a contemporaneidade. "O plano museológico foi pensado para que este imóvel abrigue um museu que dialogue com os desafios de hoje", anunciou, reforçando que a estrutura deve se conectar com as demandas e a identidade do presente.
O promotor de Justiça e coordenador da CPPC, Marcelo Azevedo Maffra, celebrou a união de esforços institucionais para a preservação. "A união é a palavra que move a preservação do patrimônio. O Minas para Sempre é um programa que materializa esse ideal de integração, que envolve o poder público e a sociedade", destacou o promotor, agradecendo o empenho da Coordenadoria Estadual de Defesa da Ordem Econômica e Tributária (Caoet) na viabilização dos recursos.
O procurador-geral de Justiça, Paulo de Tarso Morais Filho, encerrou os pronunciamentos reforçando o papel do Ministério Público como agente de transformação social. "Promover a Justiça vai muito além de ajuizar ações, mas buscar eficácia da cidadania plena e efetivação de todos os direitos indisponíveis, dentre eles o de ter preservado o patrimônio histórico. Estamos devolvendo a Diamantina um pedaço da sua alma", declarou.
História e arquitetura
Construída no século XVIII, a Casa do Intendente Câmara é um dos exemplares mais representativos da arquitetura colonial mineira. O sobrado carrega o testemunho do trabalho de artífices e pessoas escravizadas, cujos conhecimentos especializados foram fundamentais para a execução de estruturas complexas, como os 37 esteios e pés-direitos que sustentam a edificação, e os refinados tetos em gamela.
A arquitetura do imóvel destaca-se por sua fachada branca com janelas azuis, característica de Diamantina, e pela presença de sacadas tanto na fachada principal quanto nos fundos. No pavimento superior, encontram-se oito cômodos amplos, onde o piso original de madeira ainda resiste, apesar de modificações pontuais em intervenções passadas. Internamente, o grande destaque é o "forro pintado", uma sala com afrescos em policromia. Na parte posterior, o imóvel possui um quintal amplo com ornamentações e saída para uma viela, preservando a amplitude dos terrenos do período colonial.
Minas para Sempre
A restauração foi possível graças ao programa Minas para Sempre, que visa recuperar bens culturais tombados em situação de risco. A gestão ocorreu por meio da plataforma Semente, uma ferramenta do MPMG que conecta projetos da sociedade civil a recursos oriundos de medidas compensatórias e decisões judiciais, garantindo que valores destinados à reparação de danos retornem à sociedade em forma de preservação cultural.
Fotos Camila Soares/MPMG

