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Formandas fizeram parte do projeto Restauradoras. Objetivo é disseminar métodos consagrados de resolução de conflitos e formação de consensos e vínculos sociais para superar traumas e desafios das comunidades atingidas por barragens

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O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) sediou na manhã desta segunda-feira, dia 8 de setembro, a cerimônia de entrega de certificados para 23 mulheres que concluíram o curso de Justiça Restaurativa e Introdução à Facilitação de Círculos de Construção da Paz. O curso faz parte do projeto piloto Restauradoras, iniciativa do MPMG com o objetivo de capacitar lideranças femininas das comunidades de Brumadinho que foram atingidas pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. 

O treinamento foi conduzido por João Nikolas Vieira Guimarães, assessor do Núcleo de Apoio Técnico Jurídico do Compor. Ele explicou que o curso capacitou as alunas em gestão de conflitos e práticas restaurativas, com foco na metodologia de Círculos de Construção de Paz. “Um dos temas que a gente mais trabalhou foi a escuta, porque a partir da escuta que a gente consegue compreender o que está acontecendo no ambiente, no espaço”, afirmou. Ele disse ainda que o curso abordou a identificação de sentimentos e necessidades e o manejo de conflitos do dia a dia, incluindo aqueles relacionados à tragédia de Brumadinho. 

Tema central do percurso formativo, a Justiça Restaurativa (JR) é uma abordagem que busca o diálogo e a mediação para a resolução de conflitos, abandonando atitudes violentas e respeitando a diversidade de pensamento. Ela pode ser usada para a construção de vínculos comunitários, superação de traumas, apoio em momentos difíceis e resolução de conflitos, todas situações típicas de comunidades atingidas por barragens. A partir dos métodos de atuação da JR, quando há interesses divergentes em um mesmo núcleo comunitário, a criação de espaços de diálogo pode favorecer a chegada a consensos. 

Uma das premissas dos cursos de JR é mostrar que há métodos amplamente testados e consolidados para tal diálogo. Dentre as práticas possíveis da Justiça Restaurativa estão os chamados Círculos de Construção de Paz. Em roda, os participantes se envolvem em momentos de escuta e conversa, permitindo que as pessoas entendam as histórias umas das outras. Com isso, espera-se que lidem melhor com traumas e conflitos e sirvam como pontos de apoio. O objetivo é criar uma "cultura do cuidado" que promova a dignidade e a reconciliação. 

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Iniciativa do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Apoio Comunitário, Inclusão e Mobilização Sociais (CAO-Cimos) e do Centro Estadual de Apoio às Vítimas (Casa Lilian), em parceria com o Centro de Autocomposição (Compor), o curso contou com o apoio de outros órgãos do MPMG e do Banco Sicoob. Segundo a promotora de justiça Shirley Machado de Oliveira, coordenadora da Região Metropolitana de Belo Horizonte do CAO-Cimos, a intenção é capacitar essas mulheres, que foram e continuam sendo duramente impactadas pelo desastre, para que elas ajudem a si mesmas e suas comunidades. “A capacitação busca fortalecer a autonomia, a resiliência e a transformação social a partir da escuta e do diálogo, valorizando o protagonismo feminino na luta por reparação e reconstrução das comunidades”, disse a promotora de Justiça. 

Desenvolvimento comunitário 

Três formandas compartilharam a sensação de concluir a participação no projeto. “O curso, o nome já é Restauradoras, então eu entendi que esse curso inicialmente seria para nos restaurar”, disse Anastácia Carmo Silva. Ela contou que aprendeu, primeiramente, a se ajudar e, depois, a ajudar os outros, destacando a importância de saber ouvir e ter tempo para si mesma. 

A aprendiz Maria Aparecida da Silva usou uma metáfora para descrever o processo: "a gente aprendeu a juntar os cacos, os pedaços, e a montar um vaso novo". Ela enfatizou que a restauração começou de dentro para fora. “A gente mesmo não estava sabendo lidar com a gente. E esse curso foi muito, muito, muito mesmo bom para a gente aprender, principalmente a lidar com a gente. Depois a gente entendeu o outro do lado”, comentou. 

Por sua vez, Catarina Magalhães reforçou que a capacitação a ajudou as mulheres a se redescobrirem. “Nesse curso eu descobri eu mesma, porque eu não sabia quem era eu mesma, que às vezes eu sempre colocava, priorizava o outro e me deixava de lado”, afirmou. “Eu aprendi que primeiro eu tenho que olhar para dentro de mim para poder ajudar o outro, porque se eu não tiver completa por dentro, jamais eu vou conseguir completar o outro”, concluiu. 

Formatura  

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Na cerimônia, Valéria Antônia Silva Carneiro, uma das formandas, discursou em nome das colegas. Ela mencionou a dor e a luta das mulheres de Brumadinho. “Com o rompimento, foi desdobrando e a gente foi se transformando na lama que foge a dor de uma mãe”, salientou. Ela disse que, para as alunas, este é apenas o começo. “A gente formou, a gente quer um mestrado, um doutorado, porque a gente sabe que só começou a trilhar nossos caminhos”. Ela concluiu dizendo que as formandas vão “ressignificar aquela lama e vamos ressignificar nossas vidas”. 

Em seu discurso, a promotora de Justiça de Brumadinho, Ludmila Costa Reis, destacou a importância das trajetórias das mulheres envolvidas no projeto. Ela afirmou que o curso foi um presente que as relembrou de que “se quisermos de fato influir positivamente no mundo que nos cerca, nós precisamos cuidar antes de tudo, queridas mulheres, de nós mesmas”. 

A promotora de Justiça Ana Tereza Ribeiro Salles Giacomini, coordenadora do Centro Estadual de Apoio às Vítimas (Casa Lilian), reforçou que o curso permite às mulheres “primeiro fortalecer a si mesmas para a partir daí terem também oportunidade, metodologia, ferramenta para que possam, juntamente com as outras pessoas, construir a ideia de uma co-construção, de restauro, de, enfim, de transformação social”. Ela também ressaltou que a iniciativa foi pensada para Brumadinho porque a comunidade lida há muitos anos com as questões de um possível rompimento de barragens e os traumas precisam ser enfrentados. 

O projeto Restauradoras é uma iniciativa piloto e, segundo a promotora Ana Teresa, a ideia é que, a partir dos resultados positivos, a iniciativa possa ser estendida para toda a bacia hidrográfica e formar cada vez mais lideranças em outras comunidades afetadas por desastres. 

Formatura Projeto Restauradoras - 08.09.25

Fotos Eric Bezerra/MPMG

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