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Notícias

Criminal31/05/2019
Cerca de 90 vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho são ouvidas em mutirão do MPMG e da Polícia Civil

“Todo mundo aqui está precisando ser ouvido. Não estou falando do lado financeiro, mas do lado emocional. Nós estamos precisando é de proteção”, declarou uma das atendidas

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a Polícia Civil ouviram nesta sexta-feira, 31 de maio, cerca de 90 vítimas do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, operada pela Vale, ocorrido no dia 25 de janeiro. O mutirão de atendimentos foi realizado na Faculdade Asa, situada no município, durante a manhã e parte da tarde.

Embora o foco da ação fossem as vítimas potenciais de lesão corporal em decorrência do fato, a equipe de trabalho colheu depoimentos de todos os atingidos que estiveram no local. Durante o mutirão, as vítimas também foram submetidas a exames de corpo de delito, realizados por três médicos legistas do Instituto Médico Legal (IML). Foi solicitado a elas que levassem exames médicos realizados nos últimos quatro meses.



Em entrevista à imprensa concedida no final da manhã, o promotor de Justiça de Brumadinho William Garcia explicou que, no processo de coleta de provas, há medidas que devem ser tomadas no calor dos acontecimentos, e outras que exigem um tempo específico para serem adotadas. Assim, o decurso de quatro meses desde o rompimento da barragem, segundo ele, é adequado para a identificação de todas as vítimas, para a adoção de procedimentos que não as revitimizem em suas oitivas e para a acomodação de perspectivas pessoais e psicológicas dos atingidos. “Já na perspectiva de instrução penal, o tempo dá elementos suficientes para verificarmos se ocorreram lesões leves, graves ou gravíssimas, se as vítimas deixaram de praticar suas atividades laborativas por mais de determinado tempo, se tiveram alguma deformidade permanente, se perderam total ou parcialmente a função de algum membro ou se tiveram alguma lesão que gere dificuldades para sua vida”, pontuou.

 


O promotor alertou, ainda, para o zelo que a força-tarefa de Brumadinho tem tido para abordar cada atingido. “Num caso como esse, de catástrofe em massa, a gente tem que tomar muito cuidado para não massificar as vítimas. É preciso ouvir cada uma delas com uma atenção individual para conhecer suas histórias, saber o que aquela lesão efetivamente causou e de que forma tem repercutido na vida dela ao longo desse tempo”.



De acordo com Garcia, apesar de lesões psicológicas – como traumas decorrentes do fato –, não entrarem na tipologia de lesão corporal, elas estão sendo abordadas com a mesma preocupação pela força-tarefa, por meio de uma abordagem humanística e de direitos humanos.

 



Conforme o delegado Eduardo Vieira Figueiredo, o detalhamento do que foi vivenciado antes do rompimento da barragem e no dia do fato é fundamental para se chegar a uma conclusão criminal adequada, com a exata individualização das responsabilidades de pessoas que devem ser responsabilizadas. Participaram também do mutirão o coordenador regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente das Bacias dos Rios das Velhas e Paraopeba, promotor de Justiça Francisco Generoso, os delegados Bruno Tasca Cabral e Carolina Bechelany, analistas do MPMG, escrivães e investigadores de polícia.

“Brumadinho precisa de proteção”

Com a filha de três meses no colo, a funcionária da Vale Júnia Firmino foi uma das pessoas ouvidas pelo mutirão. Ela estava grávida de oito meses no dia do rompimento e acredita que só está viva porque no dia dos fatos foi a Belo Horizonte para fazer ultrassom do bebê. “Naquela tarde, uma amiga me ligou e contou o que tinha acontecido. Perdi muitos amigos e parentes. É uma bênção estar viva com minha filha hoje”.

A oficial de serviços gerais Dulcelange Aparecida de Oliveira Silva contou que agradece a Deus todos os dias por estar viva. Relata, com emoção, que conhecia praticamente todas as 300 vítimas fatais e que, na última confraternização de natal dos funcionários, teve a oportunidade de desejar feliz natal a todos eles. “Se eu não tivesse levado marmita naquela sexta-feira, eu não estaria aqui hoje. Quando ainda estava em casa, senti que não deveria almoçar no restaurante, como fazia todo dia, e preparei uma marmitinha de arroz e carne moída pra levar e comer na usina mesmo”.



Dulcelange falou, ainda, da importância de se ouvir todos os atingidos e disse esperar que justiça seja feita. “Não podemos ter as vítimas de volta, mas esperamos que seja feita a justiça, da forma que tem que ser feita. Todo mundo está precisando ser ouvido aqui. Não tô falando da vida financeira, mas do lado emocional, de gente que perdeu filho, companheiros. Tem filho na cidade que ficou órfão de pai e de mãe. Então, o momento é de ouvir. Tem muita gente precisando de ser acolhida. Nós estamos precisando é de proteção”.
 
Veja mais sobre a atuação do MPMG frente ao rompimento da barragem.

 



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31/05/19