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Institucional20/11/2020
300 anos de Minas: no Dia da Consciência Negra, o neto de escravos Adão Ventura é o autor homenageado pelo MPMG nas redes sociais


Resgatar a história do Estado, nas redes sociais, por meio da literatura é uma das celebrações que o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) está realizando em comemoração aos 300 anos de Minas. A iniciativa é uma extensão do Trocando Letras, projeto que incentiva a leitura entre integrantes da instituição com a troca e a doação de livros.  

Como parte dos festejos, o MPMG está compartilhando desde julho, nas redes sociais, um pouco da vida, da obra e do pensamento de vários autores – alguns deles mineiros e outros que possuem alguma ligação com o Estado. Um livro de cada autor também está sendo sorteado entre os seguidores do MPMG no Instagram.

Hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, o autor escolhido para receber a homenagem é o mineiro e neto de escravos Adão Ventura, que teve sua obra traduzida para várias línguas. Ele também esteve à frente da Fundação Palmares, órgão federal voltado para a promoção social da população negra brasileira.

Para saber mais sobre o Trocando Letras nas comemorações dos 300 anos de Minas, clique aqui.

Confira abaixo a biografia de Adão Ventura.  

ADÃO VENTURA

Neto de escravos, o mineiro Adão Ventura Ferreira dos Reis, conhecido como Adão Ventura, nasceu em 5 de julho de 1939, em Santo Antônio do Itambé, antigo distrito do município de Serro-MG, no vale do Jequitinhonha. Viveu no Itambé, como diversas vezes ouviu-se o poeta se referir à sua cidade natal, até o início de sua juventude, período que influenciou sobremaneira sua obra. Ele revelou que seus primeiros versos foram escritos quando criança, na época em que iniciou os anos escolares. Depois mudou-se para a cidade de Serro e, em seguida, para Belo Horizonte, onde fixou residência.

Certa feita, ao ser questionado sobre sua naturalidade, Adão, de forma muito simpática, dizia considerar-se filiado dos dois lugares, embora a certidão registre Santo Antônio do Itambé como sua cidade natal.

Já morando na capital mineira, enquanto estudava, trabalhou como revisor no Suplemento Literário de Minas Gerais, órgão oficial do estado, então dirigido pelo também escritor Murilo Rubião, e na Revista Literária da UFMG. Publicou seu primeiro livro, Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul, em 1970. A obra, um poema em prosa, é marcada pelo fantástico, o que levou muitos críticos a aproximá-lo da herança surrealista. Um ano depois do lançamento, Adão se formou em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  

Ele recebeu diversos prêmios em vida, entre eles o Prêmio Revista Literária da UFMG, em 1971, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, no ano de 1972, e o Prêmio Fundação Cultural do Distrito Federal, em 1991. Em 1973, a convite, lecionou Literatura Brasileira Contemporânea em um curso de pós-graduação da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos. Ainda no mesmo ano, participou do Congresso de Escritores Internacionais (International Writing Program), promovido pelo Departamento de Letras da Universidade de Iowa.

Todas essas experiências vividas fora do Brasil o fizeram compreender o que é ser negro nesta vida. Para o poeta, elas foram de grande importância para seu amadurecimento como escritor e como ser humano, transfigurando sua poesia. Em Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-sociais, de Silviano Santiago, o ensaísta crítico revela que “o elemento negro (...) nestes curtos poemas de Adão advém do drama negro que é refletido pela poesia e que o poema (sem cor vocabular) carrega de alta tensão emocional. O elemento negro no poema, íntimo ou histórico, social ou racial, é antes sujeito ou objeto de reflexão do que arabesco de decoração. Enquanto reflexão, apela para a consciência crítica do leitor e para a revolta contra o estado passado e presente”. Podemos perceber, com isso, sua grande importância para a literatura e para o movimento negro.

Atuou ainda como diretor da Fundação Palmares, órgão federal dedicado à formulação e implementação de políticas voltadas para a promoção social da população negra brasileira. Sua atuação como segundo presidente contribuiu para a consolidação dos valores e da missão dessa fundação. Foi roteirista e participante do filme Chapada do Norte (1979). Em 1984, recebeu a Insígnia da Inconfidência por méritos relevantes como escritor. Pouco antes de sua morte, participou do documentário Dançantes, que retrata as Festas do Rosário no Serro e em Milho Verde.

Suas obras foram traduzidas para várias línguas, como o inglês, o espanhol, o alemão e o húngaro. Além de uma lista considerável de antologias nas quais foram inseridos poemas de sua autoria, Adão Ventura publicou seis livros de poesia, entre eles A cor da pele, de 1980, o mais comercializado. Este livro teve 5 edições publicadas, testemunhando a grandeza de sua obra.

O escritor do vale do Jequitinhonha morreu em decorrência de um câncer aos 64 anos, a 12 de junho de 2004, deixando vários escritos inéditos e um importante legado ao movimento negro. Adão Ventura ansiava que negros assumissem, de fato, sua alma negra.

O acervo do poeta (biblioteca, documentos e objetos pessoais, correspondências, clipagem de notícias de jornais sobre questões raciais, racismo e preconceito, além de rascunhos de poemas e, originais dos livros) foi doado à UFMG e está alocado no Centro de Estudos Literários e Culturais, junto de outros importantes acervos de escritores mineiros.

Obras individuais publicadas:

Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul. Belo Horizonte: Ed. Oficina, 1970.

As musculaturas do arco do triunfo. Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1976.

A cor da pele. Belo Horizonte: edição do Autor, 1980. (poemas).

Pó-de-mico de macaco de circo. Belo Horizonte: edição do autor, 1985. (literatura infantil).

Texturaafro. Belo Horizonte: Editora Lê, 1992. (poemas).

Jequitinhonha (poemas do vale). Belo Horizonte: Coordenadoria de Cultura do Estado de Minas Gerais, 1980. 2 ed. revis. e ampli. Belo Horizonte: Editora Mulheres Emergentes Edições Alternativas, 1997. (poemas).

Litanias de cão. Belo Horizonte: Edição do autor, 2002. (poemas).


 

 

PRECONCEITO

 — Muitas vezes

a cor da pele

é uma grande parede.

 

Daí

o abraço frouxo,

o beijo mal dado

e o sorriso amarelo.

 

FAÇA SOL OU FAÇA TEMPESTADE


faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.



Referências:

http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/489-adao-ventura

https://www.ufmg.br/copi/medalhahonra/adao-ventura/

http://www.algumapoesia.com.br/poesia4/poesianet413.htm

https://www.youtube.com/watch?v=tSogDvzcb8U&t=622s

https://www.youtube.com/watch?v=up4YejCELUU

http://bibliotecapublica.mg.gov.br/index.php/pt-br/suplemento-litelario/edicoes-suplemento-literarios/edicoes-especiais-1/137--114/file



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20/11/2020